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A Filha do Capitão (José Rodrigues dos Santos)

AJosé Rodrigues dos Santos, por todos reconhecido como excelente profissional da comunicação, mas cuja figura associamos mais imediatamente à vertente da informação, “surpreende-nos” – depois das excelentes crónicas de guerra “Da Crimeia a Dachau” e “De Saigão a Bagdade” – com a fluência da sua escrita romanesca, a que empresta a vivacidade e autenticidade que lhe conhecemos dos écrans.

“A Filha do Capitão” apresenta-se como uma obra de grande “fôlego”, nas suas 634 páginas, as quais, não obstante, parecem beneficiar de uma espécie de alquimia, que inevitavelmente prende o leitor, fazendo com que, uma vez iniciada a leitura, seja “impossível” parar antes de atingir o epílogo, num final comovente que não pode deixar ninguém indiferente.

Que me perdoe o autor a leitura que faço deste romance: a bela história de amor de Afonso e Agnès acaba por transformar-se no pretexto para mais uma admirável crónica de guerra, prestando tributo directo aos seus antepassados e, por via deles, homenageando todos os portugueses que se viram envolvidos na I Guerra Mundial.

Destaque-se o grande mérito de arriscar num género difícil, pouco explorado em Portugal, que extravasa a imagem que temos do jornalista, e também num contexto em que parece inevitável o estabelecer de comparações com Miguel Sousa Tavares e o seu “Equador”.

Na minha opinião, José Rodrigues dos Santos arriscou e ganhou.

Ganhou pela diversidade que caracteriza a sua obra, desbravando novos caminhos, enriquecendo o panorama literário português, colocando também a fasquia a um nível bastante elevado.

O seu romance, embora abrangendo um período temporal que intersecta a época tratada por Miguel Sousa Tavares em “Equador” (o reinado de D. Carlos), acaba por ter nesse período o ponto de partida para uma acção que se centra sobretudo na Flandres nos anos de 1917/1918, culminando com o comovente regresso a França em 1928, à (re)descoberta do seu passado.

A envolvente é diferente, assumindo a crueza da guerra de trincheiras um papel fulcral na narrativa, também com um intenso trabalho de reconstituição histórica.

E, não obstante tivesse por “matéria-prima” de trabalho, não o “calor tropical” do Equador, mas antes o frio gélido do Inverno da Flandres, a história não deixa de ser empolgante.

Através de Afonso e dos seus companheiros de armas, superiores hierárquicos e subordinados, é também um retrato de Portugal – de então, como de hoje… – que é esboçado, não deixando sem referência o laxismo, a ausência de orientação estratégica, de liderança e de organização, o alheamento ou desmotivação, o improviso, mas também o voluntarismo e a generosidade.

Começa por nos ser contada a história da vida de Afonso e de Agnès, em capítulos intercalados, com um ritmo vivo, em que a leitura parece correr a uma velocidade acelerada, tal a ânsia de, rapidamente, “chegar mais à frente” na narrativa.

Da infância “menos do que humilde” de Afonso, à descoberta da capital, Lisboa, numa visita a uma prima afastada, que lhe proporcionaria travar pela primeira vez conhecimento com o “football”, o que viria posterior, mesmo que involuntariamente, a ter uma importância decisiva no seu futuro, ao contribuir para o afastamento da vida de seminarista e a subsequente reorientação para a carreira militar, por via da frequência da Escola do Exército, que lhe seria “imposta” como forma de progressão social que lhe permitisse ser um marido “condigno” da namorada de adolescência.

Ao nascimento de Agnès, numa família burguesa do Norte de França, de origem flamenga, “de posses”, ligada ao comércio de vinhos e à exploração agrícola de uvas para champagne, que lhe proporcionaria a fantástica experiência de visitar a Exposição Universal de Paris, em 1900, conhecendo a famosa Torre Eiffel, edificada 11 anos antes. E, algum tempo depois, a possibilidade de iniciar os seus estudos universitários de medicina em Paris. Passando pelo difícil despertar para a realidade da guerra, em 1914, consequência de um longínquo assassinato de um arquiduque austríaco, em Sarajevo, por um sérvio. Com consequências trágicas para o seu jovem e recente esposo, entretanto alistado no exército.

Até ao dia (20 de Novembro de 1917) em que, integrado no Corpo Expedicionário Português na Flandres, Afonso, sucessiva e fulgurantemente promovido, entretanto já Capitão, se hospeda no castelo do barão Redier, conhecendo então a que se tornara a jovem baronesa Agnès – cuja vida sofrera, em função da guerra, uma alteração radical, passando desde logo pela viuvez e dificuldade em financiar a conclusão dos seus estudos universitários, perdido que estava o contacto com a família, em Lille, para lá das linhas militares alemãs –, por quem se iria “irremediavelmente” apaixonar.

Nos meses seguintes, em paralelo com o desenrolar de uma guerra de trincheiras, e sem poder adivinhar os planos alemães de aproveitar a fragilidade das linhas defensivas a cargo dos portugueses, Afonso e Agnès vão fortalecendo os laços de amor que os unem, também com o envolvimento da jovem no apoio ao corpo militar português, prestando serviço no hospital de campanha.

A narrativa, espraiando-se pela crónica da guerra, abre também espaço para o protagonismo de alguns “heróis”, saindo do anonimato das trincheiras, desde o “Matias Grande”, ao “Vicente Manápulas”, ao “Baltazar Velho” e mesmo o “Abel Lingrinhas”, impelidos para a frente de batalha pelos aliados ingleses, até mesmo na véspera e dia de Natal de 1917.

A “tempestade” final precipitar-se-ia contudo a 9 de Abril de 1918 – data prevista para a rendição dos militares portugueses por tropas inglesas –, em que os alemães lançam um ataque decisivo sobre a frente de batalha a cargo da força portuguesa, no vale do Lys.

Esgotados, desmotivados, sem liderança e, finalmente, sem armamento, desesperando pelo auxílio dos aliados britânicos que acabaria por não chegar em tempo oportuno, os portugueses vêem-se numa situação de absoluta incapacidade para reagir ao ataque alemão; um a um, os militares vão sendo feridos, mortos ou feitos prisioneiros de guerra, o que acontece a Afonso, que assim se vê para sempre separado da sua amada.

Apenas após o armistício de 11 de Novembro de 1918, Afonso, ainda em cativeiro, perceberia que os alemães tinham perdido a guerra, acabando, já em Janeiro de 1919, por vir a ser libertado e a retornar a Portugal.

Regressaria à sua terra, Rio Maior, acabando – depois de perdida a ilusão de poder reencontrar a sua impossível paixão – por casar com a antiga namorada de adolescência.

Teria de esperar ainda 10 anos para fazer uma descoberta que, num regresso a França, com o comovente reencontro com o seu passado, lhe proporcionaria “reviver” a sua antiga paixão, agora projectada numa nova vida.

Uma bela história de amor, através da qual nos é possibilitado conhecer um pouco melhor o mundo, ficar a saber algo mais, sobre a vida num Seminário, num Quartel militar, sobre a Guerra, sobre a História...

Obviamente imperdível!


A Fórmula de Deus (José Rodrigues dos Santos)

ANa sequência de “O Codex 632″, José Rodrigues dos Santos continua a desenvolver, em “A Fórmula de Deus”, a fórmula Dan Brown…

Não exactamente na dimensão dos capítulos (curtos nas obras recentes de Dan Brown; bem mais extensos na escrita do autor português), mas na trama, acção, romance e intriga, retomando o “protagonista” da história anterior, Tomás de Noronha, um perito em criptanálise e línguas antigas, contratado para descodificar mais uma enigmática cifra.

Desde a primeira página, tal como Brown, José Rodrigues dos Santos tem a capacidade de prender o leitor, neste caso, com um flashback de um encontro (ocorrido há cerca de 50 anos, nos EUA) entre Einstein e o então Primeiro-Ministro israelita, Ben-Gurion.

Daí, salta-se directamente para a actualidade, com o herói da história a ser surpreendido por um convite para uma missão ao serviço do governo do Irão, que lhe é dirigido pessoalmente por uma atraente iraniana.

Do Egipto ao Irão, passando por Coimbra e pelo Azerbaijão, culminando numa deslocação ao Tibete, Tomás de Noronha - no centro de rocambolescas aventuras e intrigas - vai desenrolando o novelo do mistério do que se pensava ser a fórmula secreta de uma bomba atómica de fabrico económico… afinal, a prova científica da existência de Deus!

Recorrendo a complexos conceitos de Física e Cosmologia, que procura expressar em “linguagem comum”, sublinhado também a dimensão espiritual, José Rodrigues dos Santos proporciona-nos mais umas horas de leitura envolvente, onde a perspectiva pedagógica não deixa também de estar presente.

“«No princípio, Deus criou os céus e a terra», leu em voz alta pela terceira vez. «A terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus movia-Se sobre a superfície das águas. Deus disse: ‘Faça-se luz’. E a luz foi feita.»”

“Quando o astrofísico Brandon Carter propôs, em 1973, o Princípio Antrópico, parte da comunidade científica mergulhou num intenso debate sobre a posição da humanidade no universo e o significado último da sua existência. Pois se o universo está afinado para nos criar, será que temos um papel a desempenhar no universo? Quem concebeu esse papel? E já agora, que papel será esse?”

”A Fórmula de Deus” inicia-se com o relato do encontro de Albert Einstein com o Primeiro-Ministro israelita Ben-Gurion, em Princeton, nos EUA, no ano de 1951, em que o cientista terá lançado algumas interrogações:

- Será o conceito antropomórfico de Deus - ao qual associamos comummente um perfil benevolente e paternalista - mais do que uma fantasia criada pelo homem para obter apoio nos momentos difíceis?

- Sendo o homem uma de entre milhões de espécies que ocupam um pequeno planeta de uma estrela periférica de uma galáxia mediana de entre milhares de milhões de galáxias existentes no universo, como pretender que Deus - neste contexto, de imensidão de proporções inimagináveis - se ocupe de cada ser individual?

A figura central do romance, Tomás Noronha, surge-nos logo de seguida, numa conferência na cidade do Cairo, no Egipto, onde é surpreendentemente abordado por Ariana, uma atraente funcionária do Ministério da Ciência do Irão, transportando consigo a cópia de um manuscrito de Einstein (”Die Gottesformel”), de cuja decifração pretende encarregar o criptólogo português, a troco de uma remuneração mensal de 100 000 euros…

Ainda antes de partir para Teerão, Tomás é abordado por agentes da CIA, que, paralelamente à missão confiada pelo Governo do Irão, o encarregam - auferindo um montante adicional de 100 000 euros / mês… - de procurar desvendar o caso do misterioso desaparecimento de um cientista da Universidade de Coimbra, alegadamente sequestrado por membros do Hezbollah!

Sem possibilidade de opção - vendo-se como que num beco sem saída -, subitamente convertido numa espécie de “agente duplo”, do Irão e dos EUA, Tomás viria a passar por inúmeras peripécias, desde uma não muito bem sucedida “incursão” pelos arquivos secretos do Ministério iraniano, que o conduziriam à prisão, ao mesmo tempo que se vai envolvendo com a bela iraniana, com uma activa colaboração na sua libertação, rematando com uma fuga via Azerbaijão, com escala em Moscovo.

A etapa seguinte passaria por uma aula sobre o “Alfa” e o “Ómega” na Universidade de Coimbra, ministrada pelo principal auxiliar do desaparecido professor catedrático, culminando na teoria do “Big Bang”, a “grande explosão” - ocorrida algures entre há dez e vinte mil milhões de anos, provavelmente há cerca de quinze mil milhões de anos -, com a expansão, numa monumental erupção, da energia antes concentrada num ponto, teoria que se conforma com as leis da termodinâmica, com o Paradoxo de Olbers, com a lei da gravidade de Newton e… com as teorias da Relatividade de Einstein.

Com uma interrogação que subsiste: se o Big Bang existiu, algo o fez existir: “Qual a primeira causa? E o que causou a primeira causa?”

Entrando na fase final das suas aventuras em busca da "Fórmula de Deus", Tomás chega a Lhasa, capital do Tibete, com a missão de se encontrar com Tenzing Thubten, um velho budista tibetano, colaborador de Einstein nos anos 50, com quem espera poder falar no majestoso, sereno e "elevado" Palácio Potala - dando a sensação de se poder flutuar entre o céu e a terra.

Ainda antes do encontro, em Shigatse, Tomás vê-se novamente refém dos iranianos, contando mais uma vez com a colaboração de Ariana para recuperar a liberdade.

Finalmente em contacto com Tenzing Thubten, é confrontado com a revelação do tema da "Fórmula de Deus", a "maior busca jamais empreendida pela mente humana, a demanda do mais importante enigma do universo, a revelação do desígnio da existência."

Ou, de como os 6 "dias da criação" bíblica corresponderiam a um total de cerca de quinze mil milhões de anos...

As descobertas de Tomás culminariam em Coimbra, passando pela Biblioteca Joanina, um "Monumento" com quase três séculos - integrado num espaço com cerca de 700 anos de ensino, a Universidade de Coimbra -, com os seus três majestosos salões, repletos com cerca de 100 000 livros!

Com a colaboração de Carlos Fiolhais e João Queiró, professores de Física e de Matemática da Universidade de Coimbra, na revisão científica do texto, José Rodrigues dos Santos apresenta-nos um romance orientado - a par da acção e da intriga "cinematográfica", à "maneira" de Dan Brown - para aspectos de índole científica (mas, também, sem negligenciar uma componente espiritual), numa espécie de "homenagem" a Einstein (cujo centenário da sua famosa Teoria da Relatividade se celebrou no ano passado).

Escrevendo as suas obras - como o próprio autor confirma - ao "correr da pena", de um jacto, "A Fórmula de Deus" não evita, aqui e ali, alguns "desequilíbrios", assim como linguagem ou expressões que, algumas vezes, soam a "postiço". O resultado final não deixa, não obstante, de ser amplamente positivo, devendo realçar-se a componente "didáctico-pedagógica" da sua escrita (expressa em qualquer dos seus três romances: "A Filha do Capitão", "O Codex 632" e "A Fórmula de Deus" - com os quais sempre aprendemos bastante).


O Sétimo Selo (José Rodrigues dos Santos)

O Sétimo SeloA obra literária de José Rodrigues dos Santos apresenta uma característica transversal a todos os seus livros: desde os ensaios “Crónicas de Guerra” (2 volumes, “Da Crimeia a Dachau” e “De Saigão a Bagdade”), passando pelos romances, como “A Filha do Capitão” (tendo por temática a I Guerra Mundial), “O Codex 632″ (elaborando sobre as origens de Cristóvão Colombo) ou “A Fórmula de Deus” (recorrendo a complexos conceitos de Física e Cosmologia, mesclando ciência com uma dimensão espiritual), a componente “didáctico-pedagógica” não deixa nunca de estar presente. Com todas estas obras, sempre aprendemos algo.

Necessariamente, assim teria de acontecer também com “O Sétimo Selo”, que - lamento, pela consideração e respeito que me merece o autor - me vejo compelido a qualificar como um romance falhado, que poderia - com vantagem para todos, leitores e autor (não obstante o inevitável prejuízo da vertente comercial) - ter resultado em novo ensaio em potencial, cujo conteúdo e mensagem só teria a ganhar em credibilidade caso fosse essa a forma adoptada.

Mais do que em qualquer dos seus anteriores romances, ressalta em “O Sétimo Selo” a escrita “ao correr da pena”, de um jacto, procurando explorar o “filão Dan Brown” (revelando-se inevitável a associação do prólogo com o início de “A Conspiração”), com o eterno herói Tomás de Noronha (perito em criptanálise e línguas antigas - ficamos sem perceber exactamente qual o fundamento do seu recrutamento para esta missão, tão frágil se revela o argumento da charada do “número da besta”, o mítico 666) envolvido em novas e rocambolescas aventuras, vivendo uma espécie de romance (?) - aqui, perfeitamente “colado com cuspo” - com uma sempre remodelada (e algo inverosímil) co-protagonista.

Não obstante as cerca de 500 páginas deste livro, a sensação que perdura é a de um apressado corropio, desde Coimbra à Austrália, passando pela Antárctida, Viena e Sibéria.

Pretendendo embrulhar a vital mensagem do aquecimento global e dos efeitos da exploração e consumo de petróleo como força motriz do desenvolvimento económico da nossa civilização numa obra de cariz romanesco, acabam por ressaltar, tendo de ser sublinhadas, as suas inconsistências ou incongruências, de que são mais cabais exemplos a (em minha opinião) infeliz forma como é introduzida na trama a questão geriátrica (com o protagonista, a assumir a perfídia de, traiçoeiramente, internar a mãe num lar de idosos), para além da também falida pressuposta relação romântica do protagonista.

Dissecadas as fraquezas romanescas de “O Sétimo Selo”, abordemos então os seus méritos, em particular na divulgação da ameaça provocada pelo aquecimento global.

Apoiando-se em reputados especialistas, na área das mudanças climáticas (Filipe Duarte Santos), e na área energética (Nuno Ribeiro da Silva), é de forma impressiva que José Rodrigues dos Santos assume a vertente didáctica (aqui e ali, exagerando em repetitivas descrições, recorrendo a emissores e a diálogos nem sempre verosímeis), apresentando e explicando de forma pormenorizada as causas e impactos do consumo de combustíveis de origem fóssil.

Em flashback, a acção inicia-se na Antárctida, no Pólo Sul, com o desmoronar (e desaparecimento) - consequência do aquecimento do planeta - de uma plataforma de mais de duzentos metros de espessura de gelo… e com o assassinato de um cientista perito em climatologia.

Desaparecimento que alterará o equilíbrio entre o mais quente ar marítimo e a temperatura dos glaciares, vindo a provocar o degelo e consequente aumento do nível das águas do mar.

O assassínio de um segundo cientista, professor de Física na Universidade de Barcelona - sendo que, ao lado de ambos os corpos, fora encontrado um papel com um estranho sinal, com os dígitos 666 - constituiria o fundamento para o recurso ao protagonista, Tomás de Noronha, perito em criptanálise.

Iniciando a sua missão em Viena, na sede da OPEP, tendo por interlocutor um saudita, somos transportados até à erupção - em 1901, numa perfuração em Spindletop, no Texas - de gás metano líquido e negro, a que viríamos a chamar petróleo, revelando-se então, pela primeira vez, como um recurso energético abundante (bastante mais potente, seguro e limpo do que o carvão, até então a matéria-prima de base), permitindo o desenvolvimento de novos processos industriais… e o surgimento e desenvolvimento do uso do automóvel - constituindo-se na origem do negócio que mais dinheiro movimenta em todo o mundo.

Ficamos então a saber que o petróleo corresponde a restos de matéria viva, derivando da gordura de animais mortos há milhões de anos - a qual compreende hidrogéneo, que aliado ao carbono (elemento mais comum nos seres vivos), origina os hidrocarbonetos, num processo complexo que requer condições ideais de temperatura (entre os 100 e os 135 graus Celsius) e profundidade, durante determinado período de tempo. E ainda que, dos 600 sistemas existentes no planeta com condições para a produção de petróleo, 400 estão a ser ou já foram explorados, encontrando-se os restantes em zonas de águas profundas ou no Árctico.

São-nos mencionados os primórdios da exploração petrolífera, com as grandes companhias europeias e americanas a instalarem-se no Irão, Iraque e Arábia Saudita, tal como a nacionalização decidida pelo Irão em 1951, e a criação da OPEP em 1961. Ao mesmo tempo que é apontado que o pico de produção dos EUA e Canadá foi já atingido na década de 70 do século passado, estimando-se que esse pico seja atingido até 2015 no que respeita ao petróleo com origem fora dos países membros da OPEP. É ainda destacado o consumo anual superior a 24 mil milhões de barris.

A extrema dependência do actual modelo de desenvolvimento provocou já convulsões significativas em fases de ruptura temporária da produção, em 1974, 1979 e 1991, questionando-se os efeitos de uma ruptura permanente, cuja ocorrência será apenas uma questão de tempo, dependendo das reais (e actualmente ignoradas) reservas dos membros da OPEP.

A etapa seguinte do périplo conduz Tomás de Noronha à Rússia, a Moscovo, onde conhece o seu o novo e efémero par, Nadezhda (ou, simplesmente, Nadia, uma estudante universitária de Climatologia), no ponto de partida para uma longa viagem de Transiberiano… até à Sibéria, no trilho do reencontro com um antigo colega de liceu.

E será Nadia a colocar Tomás a par das recentes evoluções climatológicas na Sibéria - com um aumento da temperatura média de 5 graus nos últimos 30 anos - com locais em que o gelo da tundra começa a derreter, surgindo a terra a descoberto, um fenómeno que não ocorria há milénios, permitindo especular sobre a possibilidade de deixar de haver gelo permanente no Pólo Norte antes de 2030.

Sublinhando a constatação de que - desde que em 1850 se iniciaram os registos de temperaturas - 11 dos 12 anos mais quentes ocorreram desde 1995!

Um aquecimento entre 1 e 6 graus, previsto para o século XXI (pelo Painel intergovernamental de cientistas criado pela ONU) - desencadeado pelo efeito de estufa provocado pelo dióxido de carbono libertado para a atmosfera, decorrente da queima de combustíveis fósseis -, resultando num Verão permanente por toda a parte, com “secas cada vez mais graves, tempestades crescentemente violentas, incêndios florestais generalizados“… culminando inclusivamente no alastrar de doenças tropicais. Tendência que conduz inevitavelmente à subida do nível do mar, com consequências igualmente desastrosas; a somar aos 17 centímetros de subida já verificada desde o início do século XX, bastarão mais cerca de 50 centímetros para que toda a Polinésia fique submersa… assim como parte do litoral português. Uma estimativa de subida que pode exceder os 4 metros, atingindo os 7 metros, faria com que muitas ilhas e parte da costa de todos os continentes ficassem também abaixo do nível da água. Mas com o alerta de que essa estimativa poderá vir ainda a ser largamente excedida pela realidade.

Situações agravadas com a crescente industrialização da China e da Índia, com um modelo de desenvolvimento igualmente assente nos combustíveis fósseis.

Um verdadeiro Apocalipse em perspectiva, para o qual urge - de uma vez por todas - tomar consciência!

Com o reencontro com Filipe (que se especializara entretanto na área da Energia, em particular do Petróleo), Tomás é informado sobre o falhanço do Protocolo de Quioto - em que a maior parte dos países desenvolvidos assumira o compromisso de, até 2012, reduzir as emissões globais de dióxido de carbono para valores inferiores aos de 1990… nunca ratificado pelos EUA.

Tomando também conhecimento das previsões alarmistas de que o cruzar de uma determinada temperatura crítica poderá vir a desencadear fenómenos descontrolados, perdida a capacidade de auto-regulação da Terra. Sendo ainda alertado para o efeito - que ignorava - do metano (presente por baixo do gelo da tundra da Sibéria) sobre o aquecimento global… chegando ao extremo de se falar mesmo de “extinção em massa”!

Concluindo com a estranha descontracção (apatia ou autismo?!) pública face ao aquecimento global, em contraponto ao pânico manifestado pelos peritos, Filipe colocaria a interrogação:

“Quando os cientistas do painel da ONU vieram a público e confirmaram que, nas próximas décadas, as tempestades vão ficar mais violentas, o deserto irá alastrar para mais de metade do planeta e o nível do mar vai subir uma dezena de metros ou mais, o que seria normal acontecer? Acho que a CNN teria de interromper a emissão com grande espalhafato, milhões de pessoas deveriam ter saído às ruas em terror a exigir mudanças imediatas na política energética, os dirigentes políticos teriam de vir à televisão anunciar medidas de emergência para enfrentar esta catástrofe”.

As aventuras romanescas prosseguiriam, ainda com passagem pela Austrália, desde Sydney ao Uluru… mas - à parte algumas curiosidades adicionais a propósito da exploração do petróleo (e as referências bibliográficas de apoio) - isso já pouco virá acrescentar de realmente útil a este livro.


A Arte de Ter Sempre Razão (Schopenhauer)

a-arte-de-ter-sempre-razao.jpgPara Schopenauer, a "dialéctica erística" consiste na arte de disputar, de tal forma que se tenha sempre razão, seja por que meio for, provindo da “mediocridade natural da espécie humana”, da nossa inevitável falta de honestidade, in fine, da nossa vaidade intelectual.

Frequentemente, tendo inicialmente a firme convicção da verdade das nossas afirmações, e se, perante um argumento contrário do nosso oponente, logo renunciamos a defendê-las, acabamos por vir a descobrir posteriormente que, finalmente, tínhamos razão; “infelizmente”, o argumento definitivo não nos tinha acorrido de imediato à mente...

Isso conduz-nos a uma posição de “auto-defesa”, que acaba por se consubstanciar numa estratégia de “ataque permanente”: no final da controvérsia, acabaremos por encontrar o argumento decisivo!

E assim, acabamos por nos bater não pela verdade (objectiva), mas pela (nossa) verdade.

O “vencedor” acaba por ser, muitas vezes, não quem tem razão, mas quem, inatamente, se revela mais astucioso ou arguto.

A dialéctica tem assim subjacente o “colocar de lado a verdade objectiva ou considerá-la acidental” (até porque, muitas vezes, ignoramos de que lado ela se encontra – ou, de outra forma, no início do debate, ambas as partes crêem ser donas da razão), baseando-se na defesa das teses próprias, em oposição às da contraparte… tendo por objectivo último ter a razão do seu lado no final da controvérsia.

Qual o ponto essencial de qualquer controvérsia? O que se passa efectivamente?

O oponente (ou nós próprios) apresenta uma tese.

Para a refutar, há duas formas e dois métodos possíveis:

A – No que respeita às formas – procuramos demonstrar que

(i) a tese, simplesmente, não corresponde à natureza das coisas (“à verdade”) ou

(ii) que contraria outras afirmações proferidas pelo oponente.

B – Relativamente aos métodos – podemos ter

(i) refutação directa (ataque do fundamento da tese, demonstrando que ela não é verdadeira – mostrando que os fundamentos são falsos; ou, embora admitindo os fundamentos, demonstrando que a afirmação efectuada não pode deles decorrer) ou

(ii) refutação indirecta (por via das suas consequências, demonstrando que não pode portanto ser verdadeira – ou admitindo a “verdade” da tese e demonstrando o que dela resultaria num contexto que contrarie a “natureza das coisas”; ou, através de exemplos de casos concretos, demonstrar que terá de ser necessariamente falsa).

E o autor passa então, de seguida, à enumeração de um vasto conjunto de “Estratagemas” (38) a adoptar, visando a “arte de ter sempre razão”.

Começando, com o “Estratagema 1” – A extensão: “projectar” a afirmação do oponente para além dos seus limites naturais, interpretando-a da forma mais genérica possível, tomando-a no sentido mais lato possível ou exagerando-a; inversamente, reduzir a sua própria afirmação, da forma mais restrita possível (quanto mais uma afirmação se torna “geral”, mais ficará desprotegida face a ataques).

Exemplo – “A Inglaterra é a primeira nação em arte dramática”. Réplica: “É sabido que têm pouco valor em música e, portanto, também na ópera”. E a “contra-réplica”: “A música não integra a arte dramática, dado que esta respeita exclusivamente à tragédia e à comédia”.

A que se segue o “Estratagema 2” – Recorrer à homonímia para alargar o âmbito da afirmação a algo que, para além de uma palavra em comum, não tenha efectivamente nada a ver com o tema em debate. De seguida, refutar de forma “luminosa”, dando assim o ar de ter conseguido refutar por completo a afirmação do adversário.

Exemplo – “Você não se iniciou ainda nos mistérios da filosofia Kantiana”. Réplica: “Esse assunto dos mistérios não me interessa nada”.

“Estratagema 3” – Tomar a afirmação que fora colocada de uma forma relativa como se o tivesse sido de forma genérica, ou, pelo menos, concebê-la num contexto completamente diferente e refutá-la então nesse âmbito.

Exemplo – Num debate sobre filosofia, defendo a posição de uma dada corrente filósofa, ao mesmo tempo que, falando de Hegel, afirmo que o que ele escreveu não tem valor. O meu oponente não procura refutar a minha tese, limitando-se a dizer que também os filósofos que eu defendi escreveram muitas coisas sem valor. Embora reconhecendo tal, defenderia que a minha afirmação não tinha implícito um elogio às suas qualidades de escritores, mas enquanto homens, pelos seus actos, de um ponto de vista prático (enquanto que de Hegel apenas se podia falar de “qualidades” teóricas!).

Os três primeiros estratagemas apresentam em comum o facto de que o adversário trata, na verdade, de "outra coisa", que não a afirmação que o seu oponente pretendera sustentar.

No "Estratagema 4", aponta-se que, quando pretendemos alcançar uma determinada conclusão, não devemos deixá-la prever pelo adversário, mas ir conseguindo, gradualmente, de forma "discreta", que o oponente vá admitindo as suas premissas ao longo do debate... até ao seu "convencimento total".

No "Estratagema 5", o autor reconhece que, para demonstrar a nossa tese, podemos igualmente ter de utilizar falsas premissas (considerando que, no final, "a verdade" pode acabar por delas decorrer).

Prosseguindo, com o "Estratagema 6", Schopenhauer trata da situação de "camuflar" o postulado que queremos provar sob a forma de outro nome (por exemplo, "boa reputação", em vez de "honra"; "virtude", em lugar de "virgindade") ; ou alterando o conceito ("animais de sangue quente", em vez de "vertebrados"); ou admitindo como verdade geral o que é contestado a nível individual ou particular (por exemplo, da contestação da "certeza da medicina" por via da incerteza inerente a todo e qualquer ser humano).

Passando ao "Estratagema 8", chega-se ao ponto de provocar a fúria do adversário (dizendo dele uma clara e óbvia injustiça ou provocando-o), dado que, em tal estado psicológico, dificilmente terá o discernimento e a capacidade de desenvolver julgamentos correctos.

Avançando para o "Estratagema 10", quando nos apercebemos que o adversário faz questão de rejeitar responder às questões que necessitariam de uma resposta afirmativa para que a nossa tese pudesse ser sustentada, interrogá-lo sobre a tese oposta como se fosse o que pretendêssemos vê-lo aprovar; ou, pelo menos, suscitar-lhe a necessidade de optar por uma de duas vias, de forma que acabe por não conseguir perceber qual a tese a que desejamos que ele acabe por vir a aderir.

Nesta rápida "visita" à obra de Schopenhauer, passando ao "Estratagema 18", se nos apercebemos que o nosso adversário encontrou uma base de argumentação sólida, que lhe acabará por permitir que nos venha a vencer, devemos procurar impedi-lo de concluir a sua argumentação, interrompendo-o no momento oportuno e desviando o debate para outras questões.

No "Estratagema 26", refere-se que uma técnica brilhante é a que consiga recorrer à utilização, contra o adversário, do argumento que ele próprio defendia. Por exemplo, quando diga: "É uma criança, devemos ser indulgentes..."; retorquir: "É precisamente por ser ainda uma criança que deve ser punido, para que tal sirva de exemplo".

E culmina com o (último) "Estratagema 38", que refere que, se nos apercebemos que o oponente é superior e que nos vai derrotar, a melhor arma é abandonar a querela e passar a atacar directamente o adversário, pelo que ele é ou representa (ataque "pessoal"), tornando-nos vexantes, agressivos, grosseiros, um verdadeiro apelo à "animalidade"... em nome da mencionada “mediocridade natural da espécie humana”, da inevitável falta de honestidade e da nossa vaidade intelectual...

(Evidentemente, parecem-me dispensáveis comentários adicionais sobre a "ética" associada a este "estratagema"!).


Equador (Miguel Sousa Tavares)

EquadorTudo é magnífico, começando pela capa que é belíssima; o próprio título (”EQUADOR”) é um achado; depois o conteúdo é brilhante, uma história que prende o leitor da primeira à 527ª página (com um desfecho inesperado), com uma escrita clara, límpida, transparente, sem pretensões de obra-prima da intelectualidade.

Se há “altos e baixos” ao longo do livro (e há …) é porque os “altos” são passagens de uma grande intensidade e de um nível que seria impossível manter ao longo de uma obra com esta dimensão (obrigado Dr. Miguel Sousa Tavares por nos proporcionar mais de 500 páginas de deslumbramento).

A vontade de “ver” (sim, porque conhecer, já o conhecemos pela descrição feita pelo autor) S. Tomé (e Príncipe !) do início do século passado é imensa.

O protagonista da história faz-nos lembrar um daqueles heróis de “capa e espada”, em que a honra está acima de tudo. Tudo é tão belo que conseguimos mesmo nutrir simpatia pelo Rei D. Carlos (mais conhecido pela sua bonacheirice e pelo regicídio de que foi vítima).

O enquadramento / inserção do casal britânico na história (a parte da história passada na Índia) é de uma qualidade notável.

A própria promoção do livro me parece extraordinariamente bem feita (mesmo “o seu primeiro romance” parece ser uma mensagem subliminar que nos deixa na dúvida: primeiro romance do autor ou “primeiro” romance do leitor ?!).


Rio das Flores (Miguel Sousa Tavares)

Rio das FloresComo ponto prévio às breves notas que aqui apresentarei a propósito de “Rio das Flores”, do forçoso cotejo deste livro com o mais recente romance de José Rodrigues dos Santos, é mister assinalar que se trata de obras cuja escrita se situa em patamares bastante diferentes, com evidente vantagem para a de Miguel Sousa Tavares.

Que – na sequência do êxito alcançado com “Equador” – procurava, com este novo livro, a consolidação e afirmação como romancista, permitindo-se passagens algo pretensiosas, de que recupero alguns trechos a título de exemplo:

«A mãe ficara na quinta, a vê-los partir da entrada da casa, às primeiras horas da manhã daquela quinta-feira do final de Setembro, ainda o sol mal dispersara a névoa suspensa sobre a charca em frente ao terreiro da casa, onde o primeiro restolhar das asas dos patos afastava os gritos nocturnos das corujas e das rãs.» (página 14)

«Uma mão invisível, vinda das montanhas por trás da cidade, tinha pegado nele como um náufrago à deriva e tinha-o feito seu refém, cativo para sempre da luz que magoava, do calor que entorpecia, da humidade que o prostrava de exaustão feliz.» (página 325)

«[…] voara sobre os mares e oceanos numa viagem onde o sonho e a ousadia da ciência se fundiam num impensável desafio aos deuses, desembarcara num país impossível, fora de todas as classificações e experiências, onde descobrira, com uma lucidez quase cruel, que a fronteira entre o juízo e a perdição é uma linha demasiado ténue» (página 462).

A vasta promoção comercial deste romance contribuiu - ainda com maior intensidade - para elevar as expectativas a níveis absolutamente inusuais em Portugal.

Dito isto, concluída a leitura do derradeiro capítulo do livro, o inevitável sentimento é de decepção. À medida que as páginas e capítulos se vão sucedendo, com variadas mutações de cenário - desde o Alentejo (Herdade de Valmonte, próximo de Estremoz) ao Brasil, passando por Lisboa, Espanha e, inclusivamente, pela Alemanha - ficamos sempre à espera de mais...

Em particular, no que respeita à contextualização histórica do romance - abarcando um período decisivo da história de Portugal, da Europa e do Mundo, desde o início do século XX (1915) até cerca de 1945 -, Miguel Sousa Tavares, visando construir uma obra de "grande fôlego", acabaria, em minha opinião, por ser vítima dessa desmedida ambição; ter-se-á alongando excessivamente na acção romanesca, o que acabaria por lhe retirar margem para uma mais profunda caracterização dos diversos espaços geo-políticos que pretendia abordar (os períodos de ditadura em Portugal, Espanha, Alemanha e Brasil).

E, não obstante, tudo começara de uma forma absolutamente cativante, na Real Maestranza de Sevilha...

Num prometedor arranque, Miguel Sousa Tavares proporciona-nos páginas de elevado padrão, como as que nos introduzem o protagonista - Diogo Ascêncio Cortes Ribera Flores, nascido em 1900, filho de Manuel Custódio e neto de uma sevilhana - que começamos por encontrar em Sevilha, na sua iniciação à vida adulta, como intróito à Feira tauromáquica ("Partira com o pai para Sevilha com quinze anos e três meses de idade e regressara, treze dias depois, feito um homem").

É com brilhantismo que nos é descrito o duelo na arena da Real Maestranza, naquele 30 de Setembro de 1915, entre duas figuras maiores do toureio a pé, José Gómez Ortega (conhecido por Joselito "El Gallo" ou "Gallito") e Juan Belmonte, cujas admiráveis actuações conseguimos visualizar tal a imagética da escrita, consagrando os respectivos "domínio natural" e temple.

Tal como a força da imagem que decorre de trecho de um diálogo entre Diogo e o seu irmão mais novo Pedro - cujo pensamento político se situa nos antípodas, alinhado com o Estado Novo e a União Nacional, com passagem pela Guerra Civil de Espanha, ao lado dos Nacionalistas / Falangistas, combatendo os Republicanos -, quando confidencia: "Tenho medo de uma coisa que tu não temes: que, depois de conhecer a liberdade, de ter viajado e vivido em países livres, não me volte a habituar a viver de outra maneira. Tenho medo que a liberdade se torne um vício, enquanto que agora é apenas uma saudade".

Ou, ainda, a descrição da viagem inaugural - a 1 de Abril de 1936 - do imponente Hindenburg, o dirigível que, a partir da Alemanha, conduz o protagonista à descoberta do fascínio do Brasil, com chegada à cidade maravilhosa do Rio de Janeiro - e, paralelamente, a uma viragem de 180º na sua vida.

E, também, noutro plano, a história de Luís Carlos Prestes, e suas iniciativas na luta contra o regime de Getúlio Vargas no Brasil.

O romance compreende ainda outras passagens de bom nível, como, por exemplo, a propósito da ascensão política de Salazar («Era um típico beirão, baixinho, desconfiado, sorrateiro, de voz melíflua, quase feminina, e falsa modéstia, que exibia aos quatro ventos»), que o autor sintetiza assim: «Sem "aspirar a tanto", ficaria lá quarenta anos e, apesar das "limitações de ordem moral" que a sua natureza lhe impunha, mandou perseguir, prender e exilar e fechou os olhos a que a sua polícia política torturasse e até, em situações extremas, matasse os que se lhe opuseram. Sempre, sempre sustentado pelas Forças Armadas, cortejado pelos monárquicos e abençoado pela Santa Madre Igreja».

Síntese que retoma, mais adiante, a propósito do regime político que adoptaria o nome oficial de Estado Novo, criando o partido único, a União Nacional, no qual Pedro (o irmão de Diogo Ribera Flores) seria um dos primeiros a inscrever-se, logo aquando da sua chegada a Estremoz, em 1932, começando desde então a organizar reuniões "conspirativas" a propósito da situação política em Espanha, com o advento da República... que viriam a culminar num afastamento entre os dois irmãos, o qual contribuiria também para o novo rumo que Diogo seguiria na sua vida, a caminho do Brasil, assim se esquivando ao Portugal de Salazar.

A pretexto da necessidade do acompanhamento e orientação, por parte de Diogo (uma "vedeta", chegado de balão, na sua viagem inaugural), dos seus negócios no Brasil, o autor apresenta-nos um painel descritivo da atmosfera que se vivia então no país irmão de além-Atlântico, caracterizando com detalhe o hotel em que começara por se alojar, os restaurantes, cafés e confeitarias onde se cruzavam políticos, intelectuais, viajantes, homens de negócios, espiões e jornalistas - assim aproveitando também para introduzir o contexto sócio-político brasileiro da época.

Surpreendido com a notícia de que o irmão Pedro se alistara nas hostes nacionalistas na Guerra Civil de Espanha, Diogo vê-se compelido a um interregno na sua estadia brasileira, e a regressar à herdade de Valmonte. Baixando a cortina sobre o cenário brasileiro, de imediato se abre uma outra a propósito da guerra espanhola, numa das secções mais conseguidas da obra, numa descrição de grande realismo e crueza, explorada ao longo de cerca de 50 páginas, com sequelas que perdurariam até final da narrativa.

Em busca de uma sempre difícil objectividade - não obstante acabar por tomar partido, de forma inequívoca, por uma das partes - o autor exponencia a dissensão política entre os irmãos, dando voz à perspectiva de Pedro, em diálogo de ruptura com Diogo:

«Tu gostas de Valmonte, mas não gostas da ideia de teres que defender a tua terra contra os teus inimigos. Gostas muito de brincar aos liberais e aos democratas, de ser muito compreensivo com os trabalhadores da herdade, mas, bem no fundo de ti, não gostas da ideia de que um dia eles não se contentem com isso e te queiram roubar a terra. Fazes muito gáudio em ser contra o Salazar e o Estado Novo, mas não gostarias de viver numa anarquia onde cada um não soubesse qual é o seu lugar e o teu não fosse o de uma vida confortável e despreocupada, com as mordomias correspondentes ao teu berço e à tua condição social e económica. Gostas muito do teu casamento e da tua família, mas desde que te dêem espaço para passares temporadas só para ti em Lisboa ou, melhor ainda, no Rio de Janeiro, a desempenhar o papel de que tu mais gostas: o de intelectual antifascista, culto e livre, moderno e cosmopolita, capaz de desembarcar de zeppelin e de ler jornais em quatro línguas. Mas o teu mundo só se aguenta, Diogo, porque há outros que pegam em armas e sujam as mãos e as consciências para defenderem o essencial dele. [...] Eu, ao menos, lutei por aquilo em que acredito. Mas não te vi, nem do meu lado, nem ao menos do outro, Diogo! [...] Podes crer que o teu papel foi bem mais fácil que o meu!».

Fatalmente atraído - como que por um qualquer estranho magnetismo - para o Brasil, onde as terras, com abundância de água, tinham um preço muito inferior ao praticado em Portugal, e os trabalhadores auferiam salários largas vezes inferiores, Diogo depara-se com o "lugar mais bonito que alguma vez vira à face da terra", a Fazenda Águas Claras, junto ao Rio das Flores, nomes proféticos, correspondendo ao que, sem o saber de forma consciente, buscava. A 10 de Novembro de 1937, tornava-se dono de uma fazenda no Brasil...

Algum tempo depois, a pretexto da declaração de guerra - a 3 de Setembro de 1939 -, proclamada pela Inglaterra contra a Alemanha nazi, Diogo via-se retido no Brasil, sem poder viajar de forma segura para a Europa.

E assim se iria deixando ficar; ao mesmo tempo que criava e reforçava os laços à sua nova terra, mais se afastava de Portugal... e da família, com quem a troca de correspondência ia sendo cada vez mais espaçada.

Concluindo como iniciei, "Rio das Flores" é uma obra ambiciosa, o que, associado à intensa promoção comercial de que beneficia, contribui para o elevar da fasquia a um nível porventura excessivamente elevado e eventualmente desfasado da ideia e objectivo que presidiu à sua escrita.

Trata-se de uma realização com amplos méritos, com inegável valor acrescentado - numa área e sob uma perspectiva ainda pouco exploradas -, que, como o próprio autor enfatiza, não é um livro de história, mas sim um romance histórico.

Num balanço final, a componente romance (e de "saga familiar") acaba, na minha leitura (repetindo-me, também à luz da referida promoção de que tem sido alvo, tendo presentes as expectativas suscitadas), por ocupar uma parte algo excessiva da obra - muito centrada sobre a figura do protagonista e suas andanças - a que acresce um final desprovido de surpresa.

Sendo vasto o trabalho de contextualização histórica, peca ainda assim por visar vários cenários geo-políticos: se é brilhante a descrição de episódios da Guerra Civil de Espanha e pormenorizada a caracterização sócio-cultural do Brasil - e não obstante a sucessão de factos históricos que são relatados - esperar-se-ia mais (e maior relevância na trama) do enquadramento político de Portugal no período abarcado pelo livro, de 1915 a 1945, uma fase crucial que condicionaria decisivamente a história do século XX português.

Em última análise, é ao autor do livro que cabe a prerrogativa de seleccionar qual a mensagem que pretende transmitir; no caso, tendo como "pano de fundo" a envolvente histórica, terá entendido privilegiar a estória de vida do protagonista e seus mais próximos.


O Pequeno Livro do Grande Terramoto (Rui Tavares)

O Pequeno Livro do Grande TerramotoEscritor e historiador, Rui Tavares nasceu em Lisboa em 1972, tendo-se formado em História (variante de História da Arte); depois de concluir o Mestrado em Ciências Sociais, é Doutorando em Histoire et Civilisation na École des Hautes Études en Sciences Sociales, de Paris, dedicando-se actualmente à história e crítica da arte e da literatura, bem como das relações entre cultura, política e ciência no Iluminismo; foi também um dos fundadores do blogue Barnabé.

“O Pequeno Livro do Grande Terramoto” – evocando os 250 anos do terramoto de Lisboa de 1755 – ganhou a votação para melhor livro de 2005, na categoria de Ensaio, promovida pelo programa "Livro Aberto", da RTP-N e da 2: e pelo suplemento "Mil Folhas" do Público.

Nesta obra, o autor começa por abordar a temática dos acontecimentos que provocam pontos de ruptura no desenrolar da História, fazendo mesmo um paralelismo entre os impactos do terramoto de Lisboa e do 11 de Setembro e, também, com o tsunami de 2004 no Sudeste asiático, não só a nível físico e arquitectónico, mas também das suas consequências a nível de mudança de mentalidades e da forma de encarar a religião.

Apresenta-nos de seguida um ensaio de história “contrafactual”, procurando conjecturar como seria a cidade de Lisboa de hoje caso não tivesse existido o terramoto.

A obra compreende ainda uma breve cronologia do ano de 1755 em Portugal, em que a vida parecia correr “pacata” e, mais à frente, narrativas dos acontecimentos do dia 1 de Novembro, contadas na “primeira pessoa”, por testemunhas que viveram a terrífica experiência da tripla catástrofe que destruiu uma parte da cidade de Lisboa: terramoto, tsunami e incêndios.

Descreve-nos também os vários planos de reconstrução da cidade, elaborados por Manuel da Maia, abordando o “nascimento” do “Pombalismo”, questionando-se ainda sobre se teria existido um “Marquês de Pombal” tão influente sem a ocorrência do terramoto.

Por fim, é ainda referido o impacto que o terramoto teve fora de fronteiras, na Europa, nomeadamente a nível social e cultural.

changed March 7