Livros

Sugestões de leitura... (Autores de M a O)


MPB.pt (Carlos Vaz Marques)

MPB.ptUma obra que reúne – em texto e em áudio (!) – ideias, pensamentos e histórias contadas de viva voz por nomes como Chico Buarque, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Hermeto Pascoal, Ivan Lins, Maria Rita, Carlinhos Brown, Marisa Monte, Tom Zé, Lenine, Chico César, Edu Lobo, Vanessa da Mata, Egberto Gismonti e Ney Matogrosso, é, necessariamente, obrigatória!

Quando a esse facto se alia a qualidade e oportunidade da intervenção de um grande entrevistador/conversador como é Carlos Vaz Marques (lançando “deixas”, puxando pelo interlocutor, deixando-o “espraiar-se”, sem cercear as suas “divagações”, antes delas tirando partido para enriquecer a conversa), o que resulta é um áudio-livro – MPB.pt (com base em entrevistas do programa de rádio da TSF, “Pessoal e… Transmissível”) – que constitui um singular repertório de diálogos com alguns dos grandes protagonistas da Música Popular Brasileira.


O Afinador de Pianos (Daniel Mason)

O Afinador de PianosDaniel Mason, jovem autor estado-unidense, atingiu o “estatuto” de escritor reputado a nível internacional logo com a sua excelente primeira obra, “O Afinador de Pianos”, publicada em 2000, apenas com 23 anos.

Natural da Califórnia, Daniel Mason começou por estudar Arqueologia, com uma visita às ruínas Maias, nas Honduras; aí surgiria outro interesse, o do estudo das doenças infecciosas, em particular, da malária. Formar-se-ia em Biologia, na Universidade de Harvard.

“O Afinador de Pianos” nasce das suas estadias na Tailândia e na Birmânia (actual Myanmar), para estudar a malária.

Em “O Afinador de Pianos”, cuja acção se desenvolve na Birmânia, no final do século XIX, o Ministério da Guerra britânico requisita os serviços de Edgar Drake, para afinação de um piano Erard, um “capricho” do excêntrico major médico Anthony Carrol, que recorre à música e à medicina como via diplomática e forma de pacificação da região, na então colónia inglesa.

Depois de uma longa viagem, percorrendo quase “meio mundo” e de uma penosa deslocação pelos confins da selva birmanesa, o afinador de pianos, acabando por se envolver com os exóticos encantos naturais da Birmânia, pela atracção pelo carisma do próprio médico e também seduzido pela fascinante e enigmática beleza de Khin Myo, vai-se – num processo de introspecção e de viagem pelo seu próprio eu “interior” – gradualmente desligando do seu país, da sua casa, e da amada esposa, tornando-se cada vez mais difícil o regresso a casa.

Com uma trama excelentemente construída, compreendendo minuciosas e exuberantes descrições da luxuriante paisagem da região, esta obra, recuperando uma tradição de enciclopedismo literário, aliada ao romance “histórico”, leva-nos a reflectir sobre a violência do processo de colonização e sobre o choque de civilizações e culturas.


O Codex Arquimedes (Reviel Netz / William Noel)

O Codex Arquimedes

De forma diversa das realidades ficcionais que nos têm vindo a ser apresentadas nos anos mais recentes por outros Códigos e Codex, "O Codex Arquimedes" relata a história verdadeira da recuperação de uma obra de um dos maiores génios da humanidade, Arquimedes, combinando com maestria ingredientes como a intriga, acção e ciência, numa fascinante viagem no tempo, aliciante não só para os interessados pela Física, Matemática e História.

O Palimpsesto de Arquimedes – resultado de trabalho de copistas do século X, transcrevendo os rolos de papiro originais – foi adquirido em leilão realizado em Nova Iorque em 1998 pela impressionante verba de mais de 2 milhões de dólares; um antigo livro de orações do século XII era afinal o resultado da reciclagem do famoso “Codex C” (que se julgava desaparecido desde há cerca de 7 séculos, tendo a sua descoberta sido anunciada em artigo no The New York Times, em 16 de Julho de 1907 - há precisamente 100 anos!), o qual se encontrava dissimulado sob o referido texto (o texto original havia sido raspado das folhas de pergaminho, as quais, depois de uma rotação de 90º, tinham sido reescritas com as referidas orações).

Um livro que demorou mais de 6 anos a recuperar, reconstruir, conservar e decifrar, com o texto a ser objecto de análise com as mais sofisticadas tecnologias de digitalização de imagens, a par de técnicas magnéticas, e ainda com recurso a raios X.

Culminando em revolucionárias descobertas, como a do Stomachion, forma precursora de cálculo combinatório e de probabilidades - para além de propiciar a única fonte original (em grego) de "Dos corpos flutuantes" e a única cópia integral de "Do método relativo aos teoremas mecânicos". Permitindo, por outro lado, constatar que a obra de Arquimedes viria a influenciar outras grandes figuras da ciência, como Newton, Galileu, Leonardo da Vinci ou Leibniz.

O Codex Arquimedes conta-nos a história do palimpsesto e dos textos nele inscritos – desde a sua origem, numa viagem de mais de 2 200 anos –, seguindo o seu “rasto”, os seus desaparecimentos e a forma como foi descoberto, recuperado, restaurado e decifrado, revelando textos do mundo antigo, mudando a história da ciência.

Incompleto, e bastante danificado, é, não obstante, o mais antigo manuscrito existente de Arquimedes, com os seus 174 fólios, constituindo-se na única fonte em grego do seu tratado mais célebre, Dos Corpos Flutuantes, e o único que compreende os textos do Método e do Stomachion.

Desde o leilão no final de Outubro de 1998 – em que o palimpsesto foi vendido a um mecenas anónimo por 2 milhões de dólares, a que acrescem 200 000 dólares de comissão –, à sua chegada ao Museu Walters, em Janeiro de 1999, ao início dos trabalhos por uma vasta equipa, já em Junho de 1999, passando pela separação das folhas (apenas iniciada em Abril de 2000, com os últimos fólios a serem separados em Novembro de 2004!), culminando nas grandes descobertas de 2001 (o Método, ou o “Infinito revelado”) e 2003 (“Stomachion”).

O legado de Arquimedes concentrava-se em três manuscritos, designados Códex A, Códex B – ambos já inexistentes, subsistindo apenas cópias e traduções – e Códex C, o famoso palimsesto.

O que é um palimpsesto? Etimologicamente, deriva das palavras gregas palin (outra vez) e psan (raspar), traduzindo que o pergaminho foi raspado (para apagar o texto inicial) e reescrito.

No caso concreto, o chamado Palimpsesto Arquimedes – um manuscrito medieval, escrito por um copista do século X sobre a pele de um animal, com uma solução de ácido gálico (presente na galha de carvalho), à qual se junta sulfato ferroso –, fora raspado com uma mistura de ácido natural, de forma a apagar as letras nele inscritas, após o que, rodados 90º, e dobrados ao meio, os seus fólios foram reutilizados para escrita de um livro de orações (no início do século XIII)!

Quem foi Arquimedes?

Matemático e inventor grego, um dos maiores cientistas de todos os tempos – pelas ferramentas que criou e pela forma como a ciência subsequente se viria a desenvolver com base na sua investigação e descobertas, fundando a combinatória (que viria a originar a teoria das probabilidades) –, nasceu em Siracusa (Sicília), então a principal cidade grega do Mediterrâneo Ocidental, por volta do ano 287 a.C., tendo sido educado em Alexandria (Egipto), acabando por se fixar em Siracusa, aí falecendo no ano 212 a.C., aquando do ataque dos Romanos.

Viria a criar um método para calcular o número π (3,1415926535), o qual traduz a razão entre o perímetro de uma circunferência e o seu diâmetro.

A sua descoberta mais célebre ficaria conhecida como o “Princípio de Arquimedes”: qualquer corpo imerso num fluido em repouso sofre, por parte desse fluido, uma força vertical para cima, cuja intensidade é igual ao peso do fluido deslocado pelo corpo.

Na mecânica, ficou célebre a sua descoberta da alavanca, com a mítica expressão: “Dêem-me um ponto de apoio e eu levantarei o mundo”.

O Stomachion

Trata-se de uma espécie de puzzle – conhecido como a “Caixa de Arquimedes” –, em que 14 peças (polígonos de 3, 4 ou 5 lados) formam um quadrado, no que foi durante séculos entendido como um mero jogo. Mas revelar-se-ia bem mais que isso…

Arquimedes estudara as medidas das várias peças, investigando os seus ângulos, para descobrir como poderiam ser unidas (formando uma linha recta, isto é, unidas a 180 graus).

O Stomachion era afinal uma forma de estudar as diferentes maneiras como as figuras podiam ser combinadas, fundando a combinatória (associada à teoria das probabilidades - que apenas no século XVII viria a ser desenvolvida na Europa), o que se traduziria – em Dezembro de 2003 – numa extraordinária revelação para a ciência, propiciada pelo Palimpsesto Arquimedes!

Stomachion

Quantas maneiras poderia haver?

Os matemáticos encarregues de estudar a questão começariam por chegar à conclusão que, inevitavelmente – para que fosse possível respeitar a forma global do quadrado –, as duas peças mais à esquerda não poderiam ser separadas, pelo que se poderiam considerar como se de apenas uma peça se tratasse.

O mesmo raciocínio se aplica a outros 2 pares de peças, reduzindo-se assim o “quebra-cabeças” a apenas 11 peças “efectivas”, em lugar das 14.

Um cientista informático viria a descobrir uma forma de definir o problema em termos de algoritmos informáticos, “descrevendo” ao computador como formar o quadrado, com um programa que simulava todas as combinações possíveis de peças, de forma a verificar as que teriam correspondência, permitindo assim efectuar a contagem das possibilidades correctas. A sua solução seria também validada por outros cientistas e investigadores, com base em fórmulas matemáticas – não obstante não ser possível demonstrar que Arquimedes tivesse efectivamente concluído este cálculo.

Decorrendo de 24 “famílias” básicas de agrupamentos, foram identificadas 536 “soluções básicas”, cada uma das quais podendo gerar 32 “rotações”: 536 x 32 = 17 152!

Concluía-se assim que há 17 152 modos diferentes de combinar as 14 peças, formando o quadrado Stomachion!

changed March 7