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A Noite do Oráculo (Paul Auster)
Em “A Noite do Oráculo”, Paul Auster prossegue a sua incessante busca do "eu", por via do "outro".
Com uma abordagem recorrente, Auster projecta-se na personagem principal do livro (um escritor) e vai-nos contando histórias dentro de histórias, dentro de histórias!
Introduzindo uma “novidade” (pelo menos com a dimensão que assume nesta obra), as extensas notas de rodapé, completando informação sobre circunstâncias passadas, dando-nos um enquadramento como que num flashback.
O “misticismo” associado ao estranho caderno azul português transporta-nos ao longo de uma história intrigante, complementada pela história do livro que o protagonista tenta escrever, até chegar a um “beco sem saída”.
A narrativa é densa, cruzando diferentes planos, mas consegue, não obstante, “agarrar” o leitor da primeira à última página.
A trama inicia-se com a descoberta pelo protagonista, o escritor Sidney Orr, de uma papelaria de Brooklin, onde encontra um misterioso bloco de notas azul de fabrico português.
Este caderno constitui o ponto de partida para a escrita de uma história paralela («Tudo o que precisas é de encontrar uma história adequada a esse ponto de partida»), que nos conduz a Nick Bowen, personificando a parábola do homem que - num momento de corte, proporcionado pela extrema proximidade da morte - abandona a vida que leva e desaparece, em busca de uma "nova vida", partindo do zero.
É a exploração de uma ideia associada à "efemeridade" da vida convencional, quando Nick, saído de casa por cinco minutos para colocar umas cartas no marco do correio, se dá subitamente conta que, ao escapar ileso de um acidente, a sua "velha vida acabou", sendo-lhe conferida uma "nova vida"; apanha um táxi para o aeroporto e compra um bilhete só de ida para o primeiro voo, sem se preocupar com o destino.
Que o transporta até Kansas City, onde é o último cliente da carreira profissional de 34 anos de um curioso taxista, com um estranho hobby a que dedicou grande parte da sua vida, o "Departamento de Preservação Histórica", a quem Nick, repentinamente descobrindo que a mulher - após tomar consciência do seu misterioso desaparecimento - lhe cancelara os cartões bancários, tem de recorrer como "empregador".
O quarto do taxista recém reformado, com as suas várias dezenas de livros, entre os quais oito ou dez dicionários, e uma enciclopédia em vinte volumes não deixa sequer antever o arquivo privado, o "museu" que - mais de três metros abaixo da superfície - se esconde sob a pomposa designação de "Departamento de Preservação Histórica", num amplo armazém de quinze por nove metros, com vinte e quatro filas duplas de enormes estantes de metal.
E a surpresa da descoberta de uma espécie de "biblioteca secreta", composta por milhares de "volumes", caracterizados por uma extrema peculariedade, o facto de não se tratar propriamente de livros... e de consubstanciar uma incrível colecção - construída ao longo de cerca de quatro décadas - com uma curiosa organização geográfica e cronológica.
Uma louca colecção que preserva o mundo, ou pelo menos parte dele: "os nomes dos vivos e dos mortos"...
Infelizmente, a narrativa paralela que Sidney Orr vai desenvolvendo no bloco de notas português acaba por ser bloqueada num "beco sem saída", quando Nick - fascinado por um volume da estranha colecção, datado de 1938, e com origem na Polónia - esquecendo-se das chaves, e fechando a porta atrás de si, inadvertidamente para sempre se encerra num quarto, construído para funcionar como abrigo anti-nuclear!...
Regressando à história "principal", a do escritor Sidney Orr, recentemente recuperado de uma grave doença, e da sua esposa Grace, o autor conduz-nos aos meandros da respectiva relação, perturbada pelo tradicional triângulo amoroso.
Durante os nove dias em que procurou escrever - no caderno português - algo que pudesse dar forma a um novo livro, Orr descobre que Grace está grávida, o que seria uma magnífica notícia... não fora o caso de a própria mãe não saber exactamente quem é o pai, o que a leva a colocar a hipótese do aborto.
Até que, ao nono dia - pouco depois de Orr rasgar as folhas do bloco de notas português e o deitar a um contentor de lixo -, o seu melhor amigo acaba por sucumbir e, paralelamente, o filho deste espancava Grace, destruindo a semente que germinava no seu ventre.
Um final de alguma forma inesperado, numa espécie de fuga ao "beco sem saída" em que findara a história que Orr desesperadamente tentara escrever no bloco de notas azul.
À conversa com Paul Auster (29.04.2005)
Apresento de seguida um resumo de uma sessão “À conversa com Paul Auster”, realizada em Lisboa (Culturgest), em 29 de Abril de 2005.
Com o Grande Auditório da Culturgest perfeitamente repleto (estimo cerca de 1 000 pessoas), o editor em Portugal (Edições Asa) introduziu Paul Auster, que, acompanhado pela escritora Luísa Costa Gomes, brindou a audiência com meia hora de leitura de algumas passagens da última obra do autor (”A Noite do Oráculo”), respectivamente na versão original (em inglês), e em português.
O melhor estava ainda para vir, com cerca de 50 minutos de “conversa” entre o escritor e o público, respondendo a cerca de 20 perguntas, interessantes, pertinentes, inteligentes (obviamente, sempre em inglês).
O resumo que a partir de agora aqui apresento sobre a “conversa de Paul Auster” com os seus leitores portugueses baseia-se em breves notas que – “ao correr da pena” e de forma necessariamente sintética e abreviada – fui tomando ao longo dessa “conversa” de cerca de 50 minutos.
Aqui expresso portanto o meu antecipado pedido de desculpas pelas omissões ou incorrecções inerentes inclusivamente a uma “conversa” mantida em inglês.
Releve-se-me também esta “longa” introdução, antes de chegar à conversa em concreto, mas, constituindo esta uma ocasião única, procurarei conservá-la na minha memória, pretendendo fixar também aqui, por via destes escritos, alguns detalhes do que foi uma noite inesquecível. (Evidentemente, como facilmente se depreenderá, Auster é, “apenas”, o meu autor contemporâneo preferido).
O ambiente era intimista, com três confortáveis sofás individuais, para o editor (Manuel Alberto Valente), para a escritora Luísa Costa Gomes (apresentada como um dos amigos portugueses do escritor, a par de Paulo Branco), que leu alguns excertos de “A Noite do Oráculo”, ocupando Paul Auster o lugar central, frente a uma sala repleta de público ávido de ouvir esta figura maior da literatura mundial; uma sala com excelentes condições, quer a nível de acústica, quer, inclusivamente, de luminosidade, contribuindo para o referido ambiente.
Um público que representará uma “imensa minoria” de portugueses que comungam do privilégio de partilhar o gosto pela escrita especial de Auster, com um carácter distintivo que o torna único; uma “imensa minoria” (a qual terá – infelizmente – de ser ainda, de alguma forma, considerada uma “elite”) que tem interesses que vão para além dos produtos de “consumo imediato” a que alguns pretendem resumir a oferta que nos é disponibilizada, essencialmente via televisão.
Após a meia hora inicial de leitura partilhada de “A Noite do Oráculo”, em inglês (pelo autor) e em português, Paul Auster começou por revelar o seu sentido de humor, ao dizer que, finda a leitura, não sabia exactamente o que era suposto ir passar-se de seguida, colocando-se naturalmente à disposição do público para as questões que lhe pretendesse formular.
E, num curtíssimo espaço, de cerca de vinte segundos, fez-se silêncio, até que alguém ousasse quebrar a natural barreira da inibição de estar em diálogo frente-a-frente com o admirado escritor.
A partir daí, vencida essa “barreira”, sucederam-se as perguntas, interessantes, pertinentes e inteligentes, que terão concerteza constituído motivo de particular gratificação para o editor português.
E, na sequência da parte inicial do encontro com o escritor, a propósito da leitura em voz alta, a primeira pergunta, abrindo da melhor forma a conversa, seria mesmo sobre a importância que a sonoridade da leitura terá sobre a forma de escrita; até que ponto, esse “teste” será importante para a fixação definitiva do texto.
Auster, visivelmente satisfeito com esta pergunta inicial, respondeu que tinha a sorte de ser casado com uma escritora (Siri Hustvedt) e confirmou a importância da sonoridade da leitura. Afirmou proceder regularmente, a cada 30 ou 40 páginas escritas, à leitura oral, para a mulher, de excertos das suas obras, de que resultariam revisões ao texto, na procura de lhe dar a melhor forma, não só escrita, mas também em termos de oralidade.
Ainda a propósito de ser casado com uma escritora, a pergunta seguinte foi a de se a personagem do seu livro seria uma continuação de uma personagem de uma obra da esposa.
Responderia taxativamente que não; os livros que escreve são, naturalmente, independentes dos escritos por Siri Hustvedt!…
Seguiu-se a referência à técnica peculiar de Auster, em cujas obras o protagonista vai contando a sua história e introduzindo outras histórias. Culminando em “A Noite do Oráculo”, em que, para além da história dentro da história, terá sentido a necessidade de recorrer a extensas notas de rodapé.
O escritor afirma não pensar que se trate de um novo estilo, a desenvolver, mas sim de uma consequência natural de esta sua última obra compreender várias histórias paralelas que vão nascendo e que se vão entrecruzando dentro do enredo principal.
A questão seguinte remeteu para um paradigma das obras de Auster: em todos os seus livros, em determinado momento da história, seja no início, a meio ou no final, os personagens acabam por “perder tudo”; até que ponto considera que a sorte é importante ou pode mesmo ser determinante na vida das pessoas.
Auster sintetizou dizendo que os seus livros mais não são do que uma metáfora do que todas as pessoas passam na vida: momentos bons; momentos menos bons, de perda, até desespero. As suas histórias são sobre a vida (“that’s what this is all about”)…
Foi de seguida questionado sobre se utiliza, na sua escrita, como método, uma técnica similar à da escrita de peças de teatro.
Refutaria, afirmando que já escreveu argumentos para cinema, mas nunca para teatro e que os romances têm uma técnica distinta.
A propósito: porque escreve tão frequentemente sobre a “escrita”?
Diz Auster: “É um tema! Também faz parte do mundo”… e, com algum humor e ironia, “o que conheço melhor” (aquele de que estará mais à vontade para falar). Aprecia-o a tal ponto, que o potenciou em “A Noite do Oráculo”, contando histórias dentro de histórias, dentro de histórias…
Retomando de alguma forma o tema inicial da oralidade da escrita, foi então questionado sobre a eventual perda que decorrerá para a escrita da necessidade de tradução.
Mais uma vez apreciando a questão, o escritor faria aqui talvez a maior “dissertação” da noite…
Começou por referir que vivemos num mundo global (“Ainda ontem estava em Nova Iorque; agora, poucas horas depois, aqui estou em Lisboa”), em que, naturalmente – e não obstante o predomínio do inglês como língua “comum” a nível internacional –, são necessárias traduções… e, portanto, tradutores.
Más traduções podem “matar uma obra”; inversamente, algumas (boas) traduções dão nova alma ou mesmo nova vida ao livro; podem chegar inclusivamente ao ponto de ser melhores que o original!…
É impossível replicar a 100 % um livro; cada língua é diferente, tem as suas especificidades próprias, os seus pontos de riqueza.
Daria mesmo o exemplo de uma obra de Dostoiewsky (“Crime e Castigo”) que leu quando tinha cerca de 15 anos, naturalmente não em russo, mas em inglês, numa tradução feita um século após a escrita do livro e que, não obstante poder não traduzir eventualmente de forma fiel o original, lhe proporcionou tal prazer na leitura que contribuiu decisivamente para o seu gosto pela escrita.
Rematou dizendo que “um livro não são só palavras, mas, principalmente, as emoções que pode transmitir”.
Questionado a propósito da Trilogia de Nova Iorque, confidenciaria que demorou cerca de 15 anos a escrever esta obra (entre 1970 e 1985), tendo começado a sua escrita numa época em que Nova Iorque era uma cidade verdadeiramente caótica.
Abrindo o coração à audiência, referiria o momento mais emocionante da sua vida como escritor quando, em 1992, encontrou um Bósnio, durante o cerco de Sarajevo, na guerra de secessão jugoslava, que se fazia acompanhar do livro.
Seguir-se-ia o momento mais divertido da noite, quando foi questionado sobre “onde se podem comprar em Portugal os agora célebres cadernos portugueses?”.
A resposta foi: “Se souberem, digam-me!…”.
Voltando a “A Noite do Oráculo”, e ao momento em que a personagem (Nick) se encerra – sem levar consigo as chaves… – num quarto que é uma espécie de abrigo antinuclear, com uma porta que se fecha automaticamente, sem possibilidade de fuga, é colocada a questão se Auster pretenderá escrever um novo livro, retomando a história nesse ponto.
Auster responde, de forma inequívoca, que não. E, novamente divertido, adianta que Nick ficará lá “preso para sempre”; não conseguirá sair de lá… “É um problema do Sidney (personagem do livro que escrevia, paralelamente, a história de Nick) e não meu!”. “Vamos lá deixá-lo sozinho”. “Eu seria capaz de dar uma continuação ao beco sem saída em que a história se transformou, mas o Sidney não tem essa capacidade”, concluiu com humor.
A propósito de uma personagem que lê Fernando Pessoa, é-lhe perguntado se leu Pessoa.
O escritor parece “acusar o toque” e responde que é claro que leu Pessoa, e já há muito tempo; senão, não o teria referido no livro… Conclui mesmo dizendo que o considera um dos mais estimulantes poetas que conhece.
A pergunta seguinte teve como “preâmbulo” um agradecimento, na medida em que, sendo a leitura (tal como a escrita…) um acto de solidão, os seus livros proporcionam maravilhosos momentos a quem tem o privilégio de os ler.
Auster agradece e responde com uma interrogação: “Porque continuamos a ler livros?”
E dá ele próprio a resposta: “A razão é porque um livro é a única “circunstância” em que “dois estranhos” (autor e leitor) se podem “encontrar” de uma forma completa, sem reservas”.
Cada leitor lê “um livro diferente”; trata-se de uma experiência muito pessoal; o escritor e o leitor “fazem” o livro em conjunto!
Questionado sobre como se sente a nível de poesia, responde que não escreve poesia há mais de 25 anos; “Só para a família!…”.
Seguiu-se então a pergunta sobre a sensação de estar prestes a finalizar um livro, ao que responderia que, ao escrever, está tão envolvido que não tem oportunidade de pensar: “Estou a acabar…”. E acrescenta que, eventualmente a par do “alívio” de concluir a obra, subsiste sempre uma sensação de algum “falhanço”, assim como a tristeza de dizer adeus a “pessoas” com quem, por vezes, “(con)viveu” anos!
Pegando no mote, foi-lhe então perguntado se não passa por situações de bloqueio, ao que confirmou que são frequentes os bloqueios e paragens (que podem ser prolongadas); mas que, quase sempre, acaba por haver uma retoma.
São momentos difíceis mas, com a experiência, vai-se aprendendo a ser mais paciente: “Hei-de conseguir encontrar uma saída para continuar a história…”.
Refere ainda que, no período de escrita, se isola, “corta com tudo”, nem vê o que o rodeia: “É por isso que não tenho quadros nas paredes!… Estou concentrado no que estou a escrever e não a olhar para as paredes…”.
Diversamente de todos os seus restantes livros, que têm como personagens pessoas, em Timbuktu escreve sobre um cão (ainda assim, de alguma forma “personificado”, como “Mr. Bones”).
Em resposta, Auster revela a génese desse livro como resultado do início da escrita do que seria outra obra; no final do primeiro capítulo, gostou de tal forma de “Mr. Bones” que decidiu escrever um livro diferente, contando a sua história.
A questão com mais conteúdo “político” da noite seria a de que diferenças vê entre Nova Iorque e a América.
Depois de uma breve referência a Bush, Auster pegaria no tema pela vertente de que cerca de 40 % dos habitantes de Nova Iorque são imigrantes, com culturas variadas e falando uma grande diversidade de línguas. Considera notável que nela confluam e coabitem / convivam de forma harmoniosa, sem grandes problemas sociais, cerca de 8 milhões de pessoas (quase tantas como em Portugal!…), de diferentes raças e grupos étnicos, culturas e religiões.
À pergunta sobre se os livros que escreve funcionam como “auto-análise”, responderia que não; são natural e necessariamente um produto / um resultado do que é como pessoa, das suas experiências e vivências, sem contudo serem auto-biográficos, nem constituindo nenhum género de “terapia”.
A noite aproximava-se do fim quando foi questionado se “vivia para trabalhar ou se trabalhava para viver”.
Retomaria uma velha ideia de que os americanos viveriam para trabalhar, enquanto que os europeus trabalhariam para viver, na qual diz não se rever. Em síntese, a escrita é (uma) parte (fundamental) da sua vida.
E, à questão final, sobre que diferenças encontrava entre a poesia e a prosa, reafirmando que não tem experiência de escrita poética, disse entender os poemas mais como fotografias, enquanto que os romances (“com a sua multiplicidade de vozes a falar em simultâneo”) seriam mais como filmes!…
Anjos e Demónios (Dan Brown)
Foi no já “distante” ano de 2000 que Dan Brown lançou o seu livro “Angels & Demons” (“Anjos e Demónios”); contudo, apenas seria editado em Portugal (tal como noutros países da Europa) em 2005, beneficiando do retumbante êxito de “O Código da Vinci” (publicado em 2003, editado em Portugal em 2004), potenciando assim a sua notoriedade (à semelhança do que acontece com as outras obras do autor, “Digital Fortress” e “Deception Point”, agora com uma fulgurante nova vaga de vendas).
Este lançamento da edição portuguesa poderá eventualmente induzir em erro alguns leitores, podendo levar a crer que se trata de uma nova aventura do protagonista, quando, efectivamente se trata da “aventura original”.
A estrutura de “Anjos e Demónios” é absolutamente paralela à de “O Código da Vinci”, com a qual perturbantemente se assemelha: partindo de um misterioso homicídio, implica organizações secretas que recorrem a um “carrasco”, comandado por uma eminência oculta e desconhecida.
O “herói” Robert Langdon (vivendo aqui a sua primeira aventura, que teria continuação em “O Código da Vinci”) emparceira com uma mulher na resolução do enigma, passando por sucessivas etapas, implicando o desvendar de um conjunto de pistas que tecem uma "teia".
As principais personagens da “sequela” (contudo, como referido, previamente escrita) surgem absolutamente decalcadas do anterior “best-seller” de Dan Brown (ou, melhor dito, “vice-versa” – os personagens “originais” de “Anjos e Demónios” seriam depois “retocados” e desenvolvidos em termos de conteúdo, ganhando maior consistência, em “O Código da Vinci”):
1. Robert Langdon, professor de Simbologia – o “herói” de ambos os romances.
2. Vittoria Vetra (filha adoptiva do cientista/padre assassinado, também cientista) / Sophie Neveu (neta do assassinado conservador do Louvre, especialista em criptografia) – as “heroínas”, co-protagonistas de ambas as histórias.
3. Maximilian Kohler (Director do CERN) / André Vernet (Presidente da filial francesa do Banco Depositário de Zurique) / Leigh Teabing – sendo Kohler e Vernet os responsáveis máximos de instituições que assumem papel de algum relevo em ambas as narrativas; apresentando Kohler e Teabing incapacidades físicas, deslocando-se em cadeira de rodas ou usando aparelhos nas pernas e andando de muletas; todos eles, de alguma forma “excêntricos”.
4. Leonardo Vetra (padre e cientista do CERN) / Jacques Saunière (conservador do Louvre) – as vítimas dos homicídios iniciais, que despoletam toda a sequência narrativa.
5. “Hashashin” (o árabe fanático) / Silas (o monge albino) - Os “mercenários”, dedicados a uma “causa”, contratados para concretizar os homicídios, recebendo instruções de uma eminência oculta.
6. Olivetti (comandante da Guarda Suíça do Vaticano) / Bezu Fache (chefe da polícia francesa) – responsáveis pelas investigações policiais.
7. “Janus” / “Professor” – as eminências ocultas que dirigem as sociedades secretas, ordenando os ataques homicidas, executados pelos “mercenários” por eles contratados.
8. “Illuminati” / Priorado do Sião – Sociedades secretas, em confronto com a Igreja Católica, opondo-se ao seu imobilismo e conservadorismo, ou em busca de uma verdade oculta desde tempos imemoriais; nenhuma delas existirá efectivamente na actualidade.
9. Gianlorenzo Bernini / Leonardo da Vinci – Grandes nomes da arte da época da Renascença, que fornecem, por via das suas obras, o fio condutor da trama, sendo-lhes também atribuída uma alegada pertença às sociedades secretas.
Fiel à sua técnica narrativa e ao seu esquema argumentativo, Dan Brown usa e abusa de capítulos curtos, com um ritmo vertiginoso, engodando o leitor através de “iscos” habilmente dispostos no final de cada capítulo (similarmente à técnica “telenovelística”, em que cada capítulo encerra a história do anterior e inicia uma nova cena, que apenas tem o seu desfecho no capítulo seguinte), praticamente impossibilitando ao leitor desligar-se do livro, facilitando e impulsionando uma ávida leitura.
Tratando-se como que de um esquisso de “O Código da Vinci”, os personagens apresentam-se menos consistentes, sendo a trama bastante menos ardilosa e trabalhada.
Ainda assim, “Anjos e Demónios” não deixa de ser um trepidante “thriller”, com quase 600 páginas narrando os acontecimentos que se concentram num único dia, entre a madrugada (nos EUA) e a meia-noite (na Cidade do Vaticano) - após passagem pela Suíça -, numa angustiante contagem regressiva visando evitar a anunciada catástrofe, obra de uma organização secreta, sequiosa de vingança, ambicionando destruir a Igreja Católica.
A história inicia-se com um misterioso homicídio de um cientista (marcado a “ferro e fogo” no peito com um estranho símbolo, o ambigrama dos “Illuminati”) num laboratório de investigação - supostamente de máxima segurança –, o CERN – Conseil Européen de Recherche Nucléaire (“Centro Europeu de Pesquisa Nuclear”), localizado na Suíça, no qual é nomeadamente estudada a aceleração de partículas.
Tal constitui o ponto de partida para a “contratação”, por parte do Director do CERN, de um conceituado “simbologista” de Harvard, especialista em iconologia religiosa, em particular na seita dos “Illuminati”, organização de cientistas que, desde os tempos de Galileu, se oporia à Igreja.
Assim entra em cena o “herói” da história, Professor Robert Langdon (voando de Boston, nos EUA, para Genève, na Suíça, no avião espacial X-33, em cerca de 1 hora), que, na segunda parte do livro, nos surge como que transfigurado num misto de “Indiana Jones” / “McGyver”, sempre parecendo ressurgir das cinzas qual Fénix renascida.
Com base numa artificiosa mescla de verdades factuais e um conjunto de monumentos realmente existentes em Roma, começa assim a desenvolver-se mais uma teoria da conspiração: a seita teria furtado do CERN a mais mortífera arma alguma vez criada pelo homem, um contentor de antimatéria (fonte de energia altamente instável) com um poder destrutivo absolutamente invulgar, que pretenderia utilizar para, destruindo o Vaticano, onde se concentravam os seus representantes máximos (os Cardeais eleitores, reunidos em Conclave, para a eleição do novo Papa), desferir um golpe fatal à instituição da Igreja Católica.
A Langdon, acompanhado da filha adoptiva do cientista assassinado, compete a investigação do homicídio e a procura da antimatéria furtada, deambulando por entre os lugares mais reservados do Vaticano (como a Biblioteca com os seus arquivos secretos e até o Gabinete do Papa) e alguns monumentos de Roma: desde o Panteão à Capela Chigi (na igreja de Santa Maria del Popolo), Praça Barberini (igreja de Santa Maria dalla Vittoria), Fonte dos Quatro Rios (Piazza Navona), culminando na Igreja da Iluminação; com passagem ainda pela Praça de S. Pedro.
Guiados pelas pistas que – partindo de versos anotados à margem de uma obra de Galileu, escritos na “língua pura” que seria o inglês (!?) – vão decifrando a cada visita aos templos onde haviam sido instaladas algumas esculturas de Bernini, como se de “checkpoints” se tratassem, perseguindo nesses símbolos dos “Illuminati” os quatro elementos (terra, ar, fogo e água), procurando, num desesperado “contra-relógio”, evitar o massacre de quatro dos mais importantes Cardeais – os “preferidos” para a eleição como novo Papa – e, em última análise, visando salvar o Vaticano.
Na acção, tem papel preponderante Carlo Ventresca, o Camerlengo, Cardeal ao qual é conferida a responsabilidade de assumir a condução dos destinos da Igreja no período de transição entre o falecimento do Papa e a eleição do seu sucessor, na boca do qual são postas – numa “comunicação ao mundo”, via televisão (!) – as palavras com conteúdo mais significativo sobre a “conflituosa” relação entre a religião e a ciência, quando, já em “desespero absoluto”, é “reconhecida a vitória dos Illuminati”.
Um final excessivamente fantasioso (embora necessariamente surpreendente) retira alguma credibilidade à obra, com um desequilíbrio na sua estrutura nas últimas sete dezenas de páginas.
"Anjos e Demónios", não sendo uma obra com o impacto de “O Código da Vinci” – e, precisamente porque a estamos a ler posteriormente, o que nos leva a notar mais facilmente as suas fragilidades – deverá reconhecer-se que terá constituído uma excelente base (quase operando como um “guião” de um filme) para a construção mais elaborada que resultou no famoso romance da “época passada”, não deixando de nos possibilitar algumas horas de interessante entretenimento.
Podemos aliás ser inclusivamente levados a “censurar o aproveitamento” que Dan Brown dela fez (como que se de um esboço se tratasse) para, de forma mais elaborada e trabalhada, construir o que viria a ser o seu êxito maior… Ou, noutra perspectiva, valorizar esse metódico e minucioso trabalho de construção!
O Código Da Vinci (Dan Brown)
Beneficiando de uma técnica narrativa de mestre, o autor, Dan Brown, usa (e "abusa") de um ritmo vertiginoso, num encadeamento de (muito) curtos capítulos, ao género novelístico, "fechando" em cada um deles a sequência proveniente do capítulo prévio e, paralelamente, abrindo "novas frentes" de desenvolvimento da acção, com concretização no(s) capítulo(s) seguinte(s), assegurando sempre a manutenção do "suspense", por vezes com recurso a uma imaginação quase "delirante".
Um enredo complexo, mas, paradoxalmente, apresentado com grande simplicidade, numa narrativa cinematográfica, que quase nos permite visualizar cada "cena"... e que, inevitavelmente, teria de vir a dar origem a um filme.
Uma permanente combinação de elementos de carácter "científico" com elementos ficcionais.
Um par de "heróis aventureiros" (à "la Indiana Jones"), ao lado de quem o leitor incondicionalmente se coloca desde o início da história.
Cenas talvez demasiado simplistas (e algo "picarescas"), como a de um corpo de polícia "perseguindo um sabonete num camião TIR", enquanto que os nossos heróis ficam com campo de acção livre e praticamente ilimitado no Museu do Louvre, que deveria ser, nesse preciso momento, a mais inexpugnável das fortalezas... ou a súbita "perícia" de Langdon em conduzir uma carrinha blindada, pouco depois da "imperícia" de condução de um táxi... ou ainda o episódio no hangar, com a súbita e recombalesca passagem dos ocupantes do jacto privado de Teabing para uma limousine...
...Ou de um polícia francês (aqui e ali, a fazer lembrar o Inspector Javert, de "Os Miseráveis"), falando inglês com indisfarçável sotaque, "ingenuamente" procurando obter junto da embaixada americana em Paris, uma informação "confidencial", alegando não se recordar do código secreto de 3 dígitos, já posto de lado há dois anos...
E, de alguma forma, uma "ponta solta" no que respeita ao interesse do Presidente da filial francesa do Banco Depositário de Zurique no conteúdo do cofre que se encontrava à sua guarda.
Mas, para além dos pequenos detalhes, uma obra admirável, um verdadeiro fenómeno sociológico, ultrapassando já os 10 milhões de livros vendidos.
Com todos os "ingredientes" para concretizar uma verdadeira "receita de sucesso":
- uma "revolucionária" interpretação da "lenda" do Santo Graal;
- uma não menos polémica teoria sobre o papel de Maria Madalena na fundação da Igreja;
- uma sempre patente "teoria da conspiração" (Opus Dei vs. Maçonaria)...
...Uma ideia de base que "não agrada" à Igreja: a da ocultação, ao longo de dois milénios (!), de um "terrível segredo", da relação de Jesus com Maria Madalena, numa mistura do "sagrado com o profano".
A ênfase colocada na questão do género, com prevalência do feminino, com a representação alegórica da fertilidade por via do cálice, também com as curiosidades de uma visão sob um diferente prisma de "A Última Ceia", de Leonardo da Vinci: a "descoberta" de que cada um dos "convidados para a última ceia" tinha o seu próprio copo, não constando portanto qualquer cálice ou a lendária taça do Graal e, sobretudo, a observação das características femininas da figura retratada à direita de Jesus Cristo.
As "curiosidades matemáticas" da sequência de Fibonacci (com um papel decisivo na decifração das mensagens codificadas de Jacques Saunière) - sequência em que cada número resulta da soma dos dois números que o precedem -, da qual decorre também a "Proporção dourada", exemplarmente retratada por Leonardo da Vinci em "O Homem de Vitrúvio".
A "Proporção Dourada" ou "Proporção Divina" (correspondendo aproximadamente ao quociente entre dois números consecutivos da sequência Fibonacci: 5/3; 8/5; 13/8; 21/13; 34/21; ...) é na verdade um número irracional, equivalente a 1,618033989, sendo observada em múltiplos fenómenos da natureza, em que o comprimento é de cerca de 1,618 vezes a largura: por exemplo, em várias partes da figura humana; nas dimensões de "câmaras sagradas" nas Pirâmides do Egipto; em écrans de televisão; postais; cartões de crédito; fotografias, ... (dando forma ao "Rectângulo Dourado", em que os lados respeitam aquela proporção "magica").
Terminando estas notas com um elemento fulcral do argumento: o "Concílio de Niceia"...
Foi nesta "reunião magna" - realizada em Niceia (actual Iznik, na Turquia) no ano 325, por convocação do Imperador Constantino, reunindo cerca de 300 bispos - que terão sido decididos quais os evangelhos a incluir no Novo Testamento (facto não comprovado historicamente - apesar da ligação que o livro pretende fazer aos "Manuscritos Coptas", como fazendo parte desses "Evangelhos Perdidos"), tendo sido igualmente deliberado sobre o carácter divino (e, portanto, não mortal) de Jesus Cristo, a par do "Credo Niceno", da formulação da doutrina da Santíssima Trindade de Deus: Pai, Filho e Espírito Santo.
Destas deliberações da Igreja (tomadas mais de 3 séculos depois da morte e ressurreição de Jesus Cristo), decorreria que Cristo, não sendo "um mortal terreno", não poderia casar, tese que é posta em crise na presente obra.
A concluir: "O Código Da Vinci", é, necessariamente, uma obra de "leitura obrigatória"!
Sem perder de vista que se trata de uma obra de ficção, que se auto-define como "romance", devendo constituir portanto pretexto para ler, reflectir... e pesquisar!
...Sem verdades absolutas!